segunda-feira, 30 de agosto de 2010

ICE WINE CADA VEZ MAIS PERTO


COLHEITA NOTURNA DAS UVAS PARA ICEWINE

Quando viajei pela primeira vez pela Nova Zelândia, na vinícola Mills Reef, na Ilha Norte, fui recebido pelo Diretor Geral que em um grand finale pomposamente serviu um cálice de icewine, o nectar maior de sua produção. Nesta época, o icewine não era mais do que um raridade, uma especiaria que se servia para pessoas importantes, em ocasiões especiais.

Anos depois, tive a honra de experimentar Eiswein no sul da Alemanha, em condições semelhantes.

Atualmente os icemine, Eiswein, vin du glacier ou vinho do gelo são elaborados em muitos países onde ocorre a viticultura do frio: Austrália, Áustria, Canadá, Croácia, Estados Unidos, França, Eslováquia, Eslovênia, Hong Kong, Hungria, Israel, Itália, Luxemburgo, Nova Zelândia, República Checa e Suécia.No Brasil está em curso a elaboração do primeiro vinho do gelo, sob a coordenação do enólogo e agrônomo Sancineto, na Vinícola Pericó, de São Joaquim, na serra catarinense.

Aparentemente, tem-se a falsa idéia de que a elaboração deste tipo de vinho é algo simples, bastando trabalhar com uvas congeladas.

A complicada vitivinicultura do gelo começa na preparação dos vinhedos. A altura das videiras deve formar uma cortina vegetal até cerca de 1,80 m, para garantir maior captação da insolação, e a linha de produção de cachos deve ficar pouco mais de meio metro acima do solo: folhas para cima, cachos para baixo. As folhas próximas aos cachos são totalmente eliminadas para expor os bagos de uva aos elementos de supermaturação (sol e calor).

A frutificação deve ser limitada a menos de dez cachos por planta. As uvas são deixadas nas videiras até janeiro e fevereiro, no hemisfério norte, ou junho, julho e agosto, no hemisfério sul. O raleio é drástico, com eliminação de cachos até que a produção de cada videira fique abaixo de um quilo! As bagas supermaduras vão sofrendo gradual desidratação ao longo das sucessivas mudanças de temperatura, levando as uvas a alternâncias de congelamento e descongelamento.

Quando a temperatura no vinhedo cai para –8°C, temperatura oficialmente determinada pela Vintners Quality Alliance (Canadá), a colheita pode ser iniciada. A concentração de açúcar das uvas está diretamente relacionada com a temperatura durante a colheita, fator que determina a qualidade do vinho.

As uvas congeladas são prensadas quase imediatamente, sob frio extremo, freqüentemente no meio do vinhedo, de forma a não permitir o descongelamento. Nas bagas de uva, o mosto doce não congela, enquanto que a água permanece sólida, na forma de gelo, durante a prensagem. Por isso, é possível recolher, separadas do gelo, gotas de mosto doce concentrado. O processo, como se pode concluir, implica baixíssimo rendimento.

A grande concentração de açúcar, a fermentação desse mosto dá-se muito lentamente, durante meses e se completa quando atingido aproximadamente 10 a 12% de álcool.

O Eiswein ou Icewine é o mais famoso vinho produzido pela viticultura de clima frio, cuja qualidade guarda compromisso direto com o equilíbrio entre o alto nível de acidez e a saliente concentração de açúcar. Pode também ser elaborado na forma de espumante, o Sparkling Icewine.

O vinho do gelo, preciosidade do frio, aquece nossos corpos e corações sedentos do deleite que, sabemos, vamos descobrir em seu calor.

SALTON COMEMORA OS CEM ANOS

Com as vistas esperançosas voltadas para o Brasil, Antônio Domenico Salton partiu de seu vilarejo para Gênova, porto onde viveu dias aflitivos à espera do embarque, quando sua mulher morreu de parto, deixando-o com o pequeno Giovanni Francesco. Veio com o menino para a Serra Gaúcha, em 1878, para fazer parte da história do vinho brasileiro.

Antônio fixou-se na Colônia Dona Isabel e, em 1880, casou-se com Lúcia Canei, com quem teve onze filhos, dentre eles Paulo, Luiz, Ângelo. Giuseppe, Antônio e César. No atual distrito de Tuiuty adquiriu o lote urbano de número 17 e lançou-se ao trabalho agrícola.

No raiar de 1890, o vinhedo de Tuiuty tinha produção suficiente para atender à família e sobras para comercialização. Surgia a figura dos Salton comerciantes de vinho e produtos coloniais, inicialmente pelos arredores do lote e, mais adiante, com muito sucesso, para fora dos limites da colônia.

Viveu uma grande evolução e se mudou para o centro de Bento Gonçalves, numa casa de madeira defronte à igreja de Santo Antônio. Ali instalou a Casa de Pasto, um armazém onde também se servia refeições.

Em 1910, morreu Antônio e a família, sob o comando da viuva Lúcia, deu continuidade aos negócios, inclusive expandindo-os com a abertura do Armazém Paulo Salton, registrada em nome do Paulo, com a participação informal de Luiz, Ângelo, Giuseppe, Antônio, César e Giovanni.

Próximo à matriz de Bento Gonçalves, as edificações tomaram lugar dos vinhedos, aumentado as atividades de vinificação, deixando para Tuiuty a ampliação dos vinhedos.

Paulo assumiu a administração da empresa. Ângelo cuidava da fabricação e manutenção de cubas, pipas, barris e bigúncios, Luiz, operava o transporte por carretão até o porto de Montenegro, Antônio e Cezar, integrando posteriormente a sociedade, trabalharam respectivamente, como enólogo e encarregado do moinho.

Em 1921 a empresa tornou-se Paulo Salton & Irmãos, oficializando a participação de Ângelo, Luiz, Giuseppe, Antônio e César. Os negócios prosperaram e as edificações foram ampliadas com a nova cantina.




OS IRMÃOS SALTON EM FOTO MONTAGEM HISTÓRICA -
DOIS DELES JÁ HAVIAM FALECIDO

Em 1936, a Salton tomou a decisão de ter uma representação em São Paulo, no bairro da Cantareira, criando um canal direto com a região de grande consumo nacional, consolidada em 1948.

Em 1960, com a aceitação de seus vinhos finos, passou a elaborar a linha Presidente, que era consumido no Palácio do Catete, no Rio, nos eventos da Presidência da República.

Atendendo a um aumento de consumo do nicho dos conhaques, em 1969 lançou o Conhaque Presidente, produto que teve ampla aceitação, tornando-se a locomotiva maior do progresso da empresa.

No início da década de 1980, assume como diretor presidente aquele que tornaria na figura mais emblemática do vinho brasileiro, Ângelo Salton Neto. Seguindo as tendências da época, a empresa foi direcionada para vinhos bem ao gosto brasileiro da época.

Este direcionamento impulsionou o crescimento da empresa e, em 1978, a Salton chegou ao 11º lugar entre as vinícolas, subindo em 1989 para o 8° e, em 1991, já era a terceira grande vinícola brasileira.

Na década de 1990, acompanhando o movimento brasileiro em direção ao vinho de qualidade mundial, aumentou a sua produção de vinhos finos através da linha Classic: Chardonnay e Merlot (97); Cabernet Sauvignon e Riesling Itálico (98) e Gewürztraminer (99).

O romper do ano 2000 assistiu a chegada ao segundo lugar dentre as vinícolas brasileiras e a consolidação linha de vinhos finos. Foram lançados dentro de uma linha premium, a Volpi, com os rótulos Cabernet Sauvignon, Chardonnay, Merlot , Sauvignon Blanc e Gewürztraminer. Mais tarde, foi introduzido o conceito da linha Séries, de vinhos varietais sem passagem pela madeira.

Em 2004 a Salton constrói as maiores instalações do país, em Tuiuty, com 30.000 metros quadrados de área edificada. O grande vinho aí gerado foi o Talento, corte de Cabernet Sauvignon, Merlot e Tannat. Um verdadeiro campeão!

Para coroar a seqüência, a Salton trouxe o excelente Desejo, um varietal especial da casta Merlot, o licoroso Intenso, bom para sobremesa ou charuto, além do espumante Evidence, aclamado no Brasil e no Exterior

Na história da Salton, não contávamos com o desaparecimento precoce da grande figura humana, o alegre Ângelo Salton Neto. Uma perda irreparável.

Parabéns Salton, pelos 100 anos! Que seus bons vinhos sempre nos acompanhem e nos aproximem dos melhores amigos!